terça-feira, 6 de abril de 2010

Silêncio...

quanto mais penso e falo
menos intuo e ouço
ainda que seja intuir
e ouvir
o silêncio...

Ressaca

Por que será que o mundo fica mais colorido depois que a ressaca passa? Será que o álcool apaga as cores?

Corda bamba

Viver é caminhar na corda bamba
Depois de cair
A gente levanta...

Nem beatnick nem workaholic

não sou beatnik
nem workaholic
sábado vou ao piknik
domingo tomo um porre
segunda bato o cartão
fazendo corpo
mole

sábado, 27 de março de 2010

Trechos - Leminski - Agora é que são elas

Um dos melhores livros que li nos últimos tempos, sem dúvida. Engraçado, digressivo, não-linear e com uma personagem central sem nome. Aliás, personagem este que conta com a ajuda (ou não-ajuda) de um biruta chamado Dr. Propp, psicanalista que acredita numa teoria tão biruta quanto ele, e que afirma serem todas as histórias - sejam ficções literárias ou reais - apenas uma uma questão de combinação de funções e esquemas, por exemplo, poderiam ter a função BL1 que é: namorado engravida namorada e é obrigado a casa com ela. Com esta função, poderíamos combinar a função KI12, que é: pai expulsa filha de casa por estar grávida, e assim por diante. O mais maluco disto tudo é que a personagem central (o tal do sujeito sem nome) parece viver em universos distintos, porém, interconectados, numa história aparentemente sem pé-nem-cabeça, além, claro, da capacidade ímpar que Leminski possui de brincar com a linguagem, sendo que alguns trechos soam verdadeiramente, absurdamente, malucos e engraçados, como estes que se seguem:

"Prezado Herr Doktor Proféssor,
eu só queria saber
por que nessa história
todo mundo tem nome, menos eu

atenciosamente,

menos eu."


Ou, este:


"— Se alguém tem alguma coisa a dizer contra este casamento, fale agora ou cale-se para sempre.
E todos realizaram aquele nosso mais fundo desejo infantil.
Um gritou:
— Eu tenho, reverendo! Essa mulher é uma vagabunda!
— Ela trepou com o noivo antes do casamento!
— Ela já é casada!
— Ela tem um amante!
— Ela cobra um absurdo pra chupar um pau!
Foi com muita fleugma que virei a cabeça para olhar a massa dos fiéis, donde saíam aquelas vozes. Nisso, uma voz gritou:
— Esse cara é viado!
— A mãe dele está na zona!
— Vi ele de sacanagem com a menininha lá fora!
— Ele tem filho com tudo quanto é mulher!
Enquanto diziam aquelas coisas da minha noiva, eu ainda podia tolerar. Mas essa súbita mudança da fortuna, desviando a artilharia de impropérios para cima da minha pessoa, era intolerável. Localizei o cara, e gritei, que ecoou na igreja toda:
— Viado é a puta que o pariu!
E parti pra cima. Enfiei a aliança no mindinho da mão direita, e já cheguei batendo. A primeira porrada com a aliança acertou em cima do olho direito, e espirrou sangue. O filho do cara me agarrou por trás, e eu fiz ele ajoelhar contrito com uma
cotovelada no saco.
O padre pulou como um tigre, e gritou para o sacristão:
— Protege o Santíssimo, o cibório, o ostensório, o turíbulo, o cálice e a patena, que eu vou mostrar a esses filhos da puta o que acontece pra quem não respeita a Casa do Senhor. Arregaçou a batina, e veio com tudo. Não deu para eu me virar a tempo, e o homem de Deus me acertou um pontapé nos rins, que doeu que nem um gole de gim puro em jejum. Rolei no meio das pernas de umas velhas, que caíram para trás, o primeiro
banco derrubou o segundo, que derrubou o terceiro, e assim até a entrada da igreja, como se fossem pedras de dominó. Do alto do púlpito, o sacristão bombardeava a balbúrdia com hóstias, galhetas de vinho, mitras episcopais, versos em latim, gritando sem parar:
— Mas que diabo de casamento é esse?"




Trechos - Caio Fernando de Abreu - Já tentei de tudo


Este trecho, do livro Morangos Mofados, em particular, me interessa muito, principalmente pelo trecho destacado em negrito. Por acaso já chegaste num momento da tua vida em que pensaste já ter tentado de tudo? E, claro, fica aí a indicação do livro>>>



"Eu peço um cigarro e ela me atira o maço na cara como quem joga um tijolo, ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, a velha angst, saco, mas ando, ando, mais de duas décadas de convívio cotidiano, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, ah não me venha com essas histórias de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, eu nunca tive porra de ideal nenhum, eu só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista capitalista, eu só queria era ser feliz, cara, gorda, burra, alienada e completamente feliz. Podia ter dado certo entre a gente, ou não, eu nem sei o que é dar certo, mas naquele tempo você ainda não tinha se decidido a dar o rabo nem eu a lamber boceta, ai que gracinha nossos livrinhos de Marx, depois Marcuse, depois Reich, depois Castafieda, depois Laing embaixo do braço, aqueles sonhos tolos colonizados nas cabecinhas idiotas, bolsas na Sorbonne, chás com Simone e Jean-Paul nos 50 em Paris, 60 em Londres ouvindo here comes the sun here comes the sun little darling, 70 em Nova York dançando disco-music no Studio 54,80 a gente aqui mastigando esta coisa porca sem conseguir engolir nem cuspir fora nem esquecer esse azedo na boca. Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê? não é plágio do Pessoa não, mas em cada canto do meu quarto tenho uma imagem de Buda, uma de mãe Oxum, outra de Jesusinho, um pôster de Freud, às vezes acendo vela, faço reza, queimo incenso, tomo banho de arruda, jogo sal grosso nos cantos, não te peço solução nenhuma, você vai curtir os seus nativos em Sri Lanka depois me manda um cartão-postal contando qualquer coisa como ontem à noite, na beira do rio, deve haver uma porra de rio por lá, um rio lodoso, cheio de juncos sombrios, mas ontem na beira do rio, sem planejar nada, de repente, sabe, por acaso, encontrei um rapaz de tez azeitonada e olhos oblíquos que. Hein? claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, a questão é onde, não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? ora não me venhas com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinqüenta ácidos, fiz seis anos de análise, já pirei de cl ín k., lembra? você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas, Rossana Galli, Franco Andrei, Michela Roc, Sandro Moretti, eu te olhava entupida de mandrix e babava soluçando perdi minha alegria, anoiteci, roubaram minha esperança, enquanto você, solidário & positivo, apertava meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo reage, companheira, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, teu potencial criativo, tua lucidez libertária e bababá bababá. As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, voltei a isso que dizem que é o normal, e cadê a causa, meu, cadê a luta, cadê o po-ten-ci-al criativo? Mato, não mato, atordôo minha sede com sapatinhas do Ferro’s Bar ou encho a cara sozinha aos sábados esperando o telefone tocar, e nunca toca, neste apartamento que pago com o suor do po-ten-ci-al criativo da bunda que dou oito horas diárias para aquela multinacional fodida. Mas, eu quero dizer, e ela me corta mansa, claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodca, me passa o cigarro, não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a banchá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o cvv às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas tipo preciso-tanto-uma-razão-para-viver-e-sei-que-essa-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá e me lamurio até o sol pintar atrás daqueles edifícios sinistros, mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?"

sexta-feira, 12 de março de 2010

Sen (tido)

será que a falta de sentido
é o que nos faz procurar o sentido?
(logo, a falta é a própria essência da busca)

se o sentido se mostra
acaba-se a pergunta
pelo sentido

logo,
o sentido da pergunta
pelo sentido
é a própria ausência
de

e o sentido das coisas
repousa
na sua própria
falta

o nada
justifica
tudo

a pergunta
sem resposta
e a resposta
sem pergunta
vai ver é isto
o que buscamos
vai ver
o sentido
é pura
e simplesmente
a própria procura
pelo

resumindo:
será que a função
da pergunta pelo sentido
é nos mover
em direção ao
NADA
pra construirmos
o tal do
sentido?
ou
quem
sabe
apenas
viver?

Trechos

"Tentou perscrutar o silêncio, e nele encontrou tudo o que havia perdido: a paz eterna da ausência, o fim dos discursos e dos tempos, a morte do corpo e do movimento, uma espécie de abandono cósmico, talvez uma entrega a Deus. Decidiu dormir. Desligar todos os cabos, tirar os sapatos e as máscaras, recolher-se dentro do próprio peito, abandonando o corpo na gravidade, na queda. Apagar."

Caótico cinema: Bang Bang


Fui a uma amostra de cinema em São Bernardo, e tive uma (agradável) surpresa: o filme em cartaz, naquela noite, era Bang Bang, do diretor Andrea Tonacci. Nunca tinha ouvido falar do sujeito, e muito menos do filme. Sentei-me na poltrona e comecei a assistir, e fui ficando cada vez mais estupefato. A cada passagem o filme me deixava mais intrigado. Fiquei me perguntando: o que é isto que está acontecendo? Palmas! Viva! Sensacional. Saí do cinema estonteado.

O filme, de 1968, é um tapa na cara do (grande) cinema norte-americano, uma sátira aos seus clichês. Já de início, temos um sujeito que entra num taxi e que não sabe onde quer chegar (uma clara crítica a obviedade dos roteiros de alguns filmes). O câmbio (naquela época, o câmbio dos carros ficava ao lado do volante) não engata a marcha, e então motorista e passageiro começam a brigar e, claro, a cena termina e... pronto (anti-extasê). Noutra passagem, uma dançarina se apresenta no teto de um prédio em São Paulo. Cena linda, dura mais de dez minutos e... pronto. Por fim, temos uma velhinha que, no final do filme, começa a explicar toda a trama ao espectador e, antes mesmo de continuar a explicação, leva uma bela tortada na cara! É isso aí, torta na cara do óbvio.

Quem tiver interesse em assistir, indico o site www.makingoff.org

Lá tem filmes de montão pra baixar. Acredito que seja o melhor site pra se baixar filmes mais difíceis de serem localizados, como este do Tonacci, que é uma raridade e que vale (muito) à pena assistir.

Piknik


Já há alguns sábados acontece o pik nik no Ibirapuera. Quem tiver interesse, acessaê: http://epiknik.wordpress.com/

No site estão todas as informações (des)necessárias a respeito do encontro, tais como local exato, tema (o próximo é um pik nik de praia erótico), além de fotos, contatos e outros. Pessoas de diversas áreas (psicologia, arte, filosofia, etc) num momento de descontração e liberdade.

Interessou?

Então é só comparecer e curtir.

Até!



Obs: a foto deste post é da artista Lee Miller, e que acabei encontrando no google imagens, quem quiser saber mais, tá lá: http://www.omartelo.com/omartelo14/materia12.html

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Celebrar ou cerebrar?

Cérebro
celebra
cerebrando?

Ou será melhor
Celebrar
sem cérebro?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Esta passagem que sou eu mesmo, e as essências que são múltiplas, pertencem a cada ato e cada objeto, e não importa se isto leva ao infinito, pois é exatamente o infinito que desejo, por não caber em mim mesmo é que me expando, também espaço-materialmente dizendo. É que levo este corpo para todos os lados, sendo que sou ele mesmo, é que toco os objetos, ainda que apenas com o olhar, e sinto meu estômago acidulante borbulhando, e os ventos e caminhos, placas indicando a ausência diversificada dos destinos, trazendo significados distorcíveis como metal derretido. Lançado no tempo-espaço, sigo a seqüência de todos os atos vivos e fugídios como nuvens no verão, nesta solidão que tudo abarca e completa, mirando nos alvos em movimento, mergulhando e emergindo num fluxo-refluxo, explodindo em devaneios, mas também em acontecimentos realmente vívidos.

sábado, 26 de setembro de 2009

O primordial

O primordial é sempre urgente, trata-se de encontrá-lo por debaixo dos séculos. Trata-se de parar os relógios cronológicos, e atingir a massa informe e caótica que há sob a casca de todas as coisas, antes da linguagem e da razão, no subterrâneo dos edifícios que construímos e sobre os quais enxergamos os panoramas.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Este mundo, além de careta, é também picareta...

sexta-feira, 12 de junho de 2009

E x p a n d i n d o . . .

sábado, 6 de junho de 2009

Dialógico

Difícil é ser dialógico quando todas as posições já estão bem definidas...

terça-feira, 28 de abril de 2009

Não gosto de cerimônia
Nem de parcimônia
Nem de amônia
Ser feliz
É crescer
Pra fora
Em volta
do mundo

Tristeza
É mergulho
Pra dentro
Pro fundo

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A Filosofia e a História

A Filosofia corre atrás da História. As teorias tentam constantemente se atualizar com o devir histórico, além da tentativa de transcendê-lo. Todavia, jamais o transcendem, pois caso assim fosse, descolarariam-se do mundo, perdendo a aderência, deixando de ser teorias para serem o próprio status quo, perdendo - por consegüinte - o status de teoria. É inerente a qualquer teoria, por assim dizer, colocar o mundo em suspenso. Mas também é inegável que a própria suspensão do mundo implica o próprio mundo. Não se pode partir de um a priori que negue o mundo, pois a possibilidade de criar conceitos sem relação com o mundo constitui, evidentemente, um absurdo. É intrínseco às teorias divergir da realidade e até mesmo questionar: o que é a realidade?
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É uma tarefa ingrata, que nunca se completa, pois o papel das teorias é exatamente este: criticar o passado e o presente, assim como supor o futuro. E é neste sentido que digo que a Filosofia corre atrás da História. No entanto há, por outro lado, a influência das teorias sobre a própria história (por exemplo, a influência do pensamento de Marx na configuração política do século XX).
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Vivemos numa época em que a teorização do mundo beira o absurdo. Temos uma superestrutura teórica que parece saturar a realidade, complexando-a. Certas teorias são demasiado complexas para dar conta dos problemas a que se propõem de maneira objetiva e até mesmo prática; há uma composição tão dinâmica de elementos dentro das teorias (a "trama" na qual os elementos estão costurados), que estas parecem se desmanchar internamente, contradizendo-se, volubilizando-se. Tudo parece tender na tentativa de encontrar no caos um ponto ao qual se agarrar, como se houvesse sempre um inimigo com o qual lidar, um perigo iminente, algo com o que seja necessário ter demasiado cautela, medo paranóico de errar, em suma, cria-se certo hábito de problematizar exageradamente, como se não fosse possível partir para uma prática já contida no cerne do próprio presente. É como se fosse necessária, para se chegar a praxis, uma ruptura demasiado artificial com o status quo, a criação de um teoria que legitime do início ao fim a prática a ser efetivada. Evidentetemente, criticar se faz sempre necessário, para evitarmos uma postura conformista, porém, quando a crítica é substituída pelo vício da crítica, tornamo-nos rabugentos, reclamando de tudo e de todos, simplesmente para manter a tradição do "reclamar".
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Por fim, ao ler algumas páginas de um livro de Filosofia, eis que por vezes nos surge a pergunta um tanto óbvia: pra que serve isto? São tantas posições teóricas diferentes, que alguns livros, no final das contas, parecem verdadeiros bang bangues teóricos, como se os filósofos morassem no velho faroeste e, ao sacarem suas pistolas, atirassem pra todos os lados, com a devida diferença de que a luta se dá num campo estritamente teórico. Há também a questão do vocabulário hiperdesenvolvido, marcado por distinções tão sutis, ao ponto de atingir o paroxismo da ininteligibilidade. Na tentativa de se facilitar o entendimento, o filósofo envereda por uma espécie de linguagem hermética, distante, auto-referente. Claro que tal procedimento também denota uma tentativa louvável de renovar a linguagem de modo que seja possível expressar a clareza exigida aos conceitos. Mas isto se constitui num movimento infinito, que jamais alcançará qualquer clareza de ordem superior. A transformação terminológica, sua crescente complexidade, a quantidade cada vez maior de pontos de referências presentes nas argumentações, e a especifidade quase absurda do que se discute geram a dificuldade em realizar análises práticas, que se desprendam desta superestrutura teórica, e que se libertem da cegueira provocada pela tentativa de dar conta de tudo quando, na verdade, perde-se a visão totalizante em troca de uma teia emaranhada, na qual o discurso se perde, cria asas, e se descola da realidade. Enfim, a superestrutura teórica nos coloca num labirinto onde a falta de univocidade da linguagem provoca confusões e discussões intermináveis. A linguagem é, por natureza, o campo onde se dá a batalha, exatamente por sua incapacidade de precisar com perfeição o que quer que seja, por ser intercontextual, perspectivista.
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Atingir a ruptura plena entre linguagem e mundo é uma utopia. A linguagem sempre se esforçará por abarcar o mundo, mas o mundo, no seu desenrolar histórico, sempre escapará da tentativa da linguagem de capturá-lo. A isto considero uma das principais insuficiências da Filosofia e, ao mesmo tempo, sua característica mais primordial: a de suspender o mundo, descrevendo-o e transfigurando-o no discurso para modificá-lo. Assim, realizamos uma ponte entre Bakhtín, que considera as mudanças na linguagem como decorrentes dos processo ecônomicos, políticos, socias e, por outro lado, Foucault, que considera - sem negar a perspectiva de Bakhtín - as mudanças ocorridas na realidade em decorrência da modificação ocorrida internamente nos próprios discursos.
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Por fim, a fragmentação do discurso, a importância - quase imperativa - de que este se desdobre em mil direções provoca uma espécie de inércia, um sentimento de descontrole diante dos inúmeros tentáculos da realidade a ser abarcada, gera desespero, certa sensação de se estar perdido na imensidão de tudo o que se pode pensar acerca de tudo. Mergulhamos no mar do pensamento, e agora nos vimos sufocados pelo que o pensamento construiu. Somos vítimas de nós mesmos, atiramos no próprio pé. Utilizamos a racionalidade para contestar o não racional, e agora nos vemos vítimas das inúmeras armadilhas que o uso excessivo da razão instrumental nos trouxe, apesar desta ser apenas um dos aspectos da racionalidade em seu sentido mais amplo.
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Podemos afirmar que, em certo sentido, a história mergulha o homem na sua correnteza, fazendo com que as tentativas de salvar a realidade por meio do discurso sejam levadas pela torrente dos fatos, sempre mostrando ao homem que não há necessariamente uma verdade na qual se agarrar. Porém, isto não invalida o discurso, sendo este um dos aspectos essenciais, senão o mais importante da razão humana: o logos. O logos é o curso (do discurso, das coisas, o movimemnto em Heráclito), assim como a história é um curso e, neste sentido, homem e história se cruzam, transformando-se numa só e mesma coisa. Sem homem não há história (vivemos a história profana, dos homens, como dizia Marx, e não a história dos sagrada, dos deuses), a história é um predicativo do homem, ao mesmo tempo em que lhe escorre pelas mãos, num misto de destino e acaso, no qual a razão intervém.




terça-feira, 14 de abril de 2009

Resposta a um comentário anônimo



Desejo não se sufoca por asfixia. Desejo é a roda que move. Sem desejo, sem movimento. Desejo só acaba na hora da morte, e isto apenas se não houver depois disto outra vida. Desejo é vida. Até as plantas desejam o sol, e os humanos desejam o sol, assim como desejam outros humanos. A fome deseja comida, e a paixão deseja a satisfação. Tudo é desejável, por que é o desejo que nos liga ao mundo, e faz com que nos direcionemos a ele (intencionalidade). No fundo, somos puro desejo, somos moventes, autônomos, buscando eternamente.