A Filosofia corre atrás da História. As teorias tentam constantemente se atualizar com o devir histórico, além da tentativa de transcendê-lo. Todavia, jamais o transcendem, pois caso assim fosse, descolarariam-se do mundo, perdendo a aderência, deixando de ser teorias para serem o próprio status quo, perdendo - por consegüinte - o status de teoria. É inerente a qualquer teoria, por assim dizer, colocar o mundo em suspenso. Mas também é inegável que a própria suspensão do mundo implica o próprio mundo. Não se pode partir de um a priori que negue o mundo, pois a possibilidade de criar conceitos sem relação com o mundo constitui, evidentemente, um absurdo. É intrínseco às teorias divergir da realidade e até mesmo questionar: o que é a realidade?
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É uma tarefa ingrata, que nunca se completa, pois o papel das teorias é exatamente este: criticar o passado e o presente, assim como supor o futuro. E é neste sentido que digo que a Filosofia corre atrás da História. No entanto há, por outro lado, a influência das teorias sobre a própria história (por exemplo, a influência do pensamento de Marx na configuração política do século XX).
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Vivemos numa época em que a teorização do mundo beira o absurdo. Temos uma superestrutura teórica que parece saturar a realidade, complexando-a. Certas teorias são demasiado complexas para dar conta dos problemas a que se propõem de maneira objetiva e até mesmo prática; há uma composição tão dinâmica de elementos dentro das teorias (a "trama" na qual os elementos estão costurados), que estas parecem se desmanchar internamente, contradizendo-se, volubilizando-se. Tudo parece tender na tentativa de encontrar no caos um ponto ao qual se agarrar, como se houvesse sempre um inimigo com o qual lidar, um perigo iminente, algo com o que seja necessário ter demasiado cautela, medo paranóico de errar, em suma, cria-se certo hábito de problematizar exageradamente, como se não fosse possível partir para uma prática já contida no cerne do próprio presente. É como se fosse necessária, para se chegar a praxis, uma ruptura demasiado artificial com o status quo, a criação de um teoria que legitime do início ao fim a prática a ser efetivada. Evidentetemente, criticar se faz sempre necessário, para evitarmos uma postura conformista, porém, quando a crítica é substituída pelo vício da crítica, tornamo-nos rabugentos, reclamando de tudo e de todos, simplesmente para manter a tradição do "reclamar".
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Por fim, ao ler algumas páginas de um livro de Filosofia, eis que por vezes nos surge a pergunta um tanto óbvia: pra que serve isto? São tantas posições teóricas diferentes, que alguns livros, no final das contas, parecem verdadeiros bang bangues teóricos, como se os filósofos morassem no velho faroeste e, ao sacarem suas pistolas, atirassem pra todos os lados, com a devida diferença de que a luta se dá num campo estritamente teórico. Há também a questão do vocabulário hiperdesenvolvido, marcado por distinções tão sutis, ao ponto de atingir o paroxismo da ininteligibilidade. Na tentativa de se facilitar o entendimento, o filósofo envereda por uma espécie de linguagem hermética, distante, auto-referente. Claro que tal procedimento também denota uma tentativa louvável de renovar a linguagem de modo que seja possível expressar a clareza exigida aos conceitos. Mas isto se constitui num movimento infinito, que jamais alcançará qualquer clareza de ordem superior. A transformação terminológica, sua crescente complexidade, a quantidade cada vez maior de pontos de referências presentes nas argumentações, e a especifidade quase absurda do que se discute geram a dificuldade em realizar análises práticas, que se desprendam desta superestrutura teórica, e que se libertem da cegueira provocada pela tentativa de dar conta de tudo quando, na verdade, perde-se a visão totalizante em troca de uma teia emaranhada, na qual o discurso se perde, cria asas, e se descola da realidade. Enfim, a superestrutura teórica nos coloca num labirinto onde a falta de univocidade da linguagem provoca confusões e discussões intermináveis. A linguagem é, por natureza, o campo onde se dá a batalha, exatamente por sua incapacidade de precisar com perfeição o que quer que seja, por ser intercontextual, perspectivista.
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Atingir a ruptura plena entre linguagem e mundo é uma utopia. A linguagem sempre se esforçará por abarcar o mundo, mas o mundo, no seu desenrolar histórico, sempre escapará da tentativa da linguagem de capturá-lo. A isto considero uma das principais insuficiências da Filosofia e, ao mesmo tempo, sua característica mais primordial: a de suspender o mundo, descrevendo-o e transfigurando-o no discurso para modificá-lo. Assim, realizamos uma ponte entre Bakhtín, que considera as mudanças na linguagem como decorrentes dos processo ecônomicos, políticos, socias e, por outro lado, Foucault, que considera - sem negar a perspectiva de Bakhtín - as mudanças ocorridas na realidade em decorrência da modificação ocorrida internamente nos próprios discursos.
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Por fim, a fragmentação do discurso, a importância - quase imperativa - de que este se desdobre em mil direções provoca uma espécie de inércia, um sentimento de descontrole diante dos inúmeros tentáculos da realidade a ser abarcada, gera desespero, certa sensação de se estar perdido na imensidão de tudo o que se pode pensar acerca de tudo. Mergulhamos no mar do pensamento, e agora nos vimos sufocados pelas águas e pelo que o pensamento construiu. Somos vítimas de nós mesmos, atiramos no próprio pé. Utilizamos a racionalidade para contestar o não racional, e agora nos vemos vítimas das inúmeras armadilhas que o uso excessivo da razão instrumental nos trouxe, apesar desta ser apenas um dos aspectos da racionalidade em seu sentido mais amplo.
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Podemos afirmar que, em certo sentido, a história mergulha o homem na sua correnteza, fazendo com que as tentativas de salvar a realidade por meio do discurso sejam levadas pela torrente dos fatos, sempre mostrando ao homem que não há necessariamente uma verdade na qual se agarrar. Porém, isto não invalida o discurso, sendo este um dos aspectos essenciais, senão o mais importante da razão humano: o logos. O logos é o curso (do discurso, das coisas, o movimemnto em Heráclito), assim como a história é um curso e, neste sentido, homem e história se cruzam, transformando-se numa só e mesma coisa. Sem homem não há história (vivemos a história profana, dos homens, como dizia Marx), a história é um predicativo do homem, ao mesmo tempo em que lhe escorre pelas mãos, num misto de destino e acaso, no qual a razão intervém.